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Como alquimistas, transformamos a visão do mundo - nossa e dos outros - através da Arte.
Poemar, tanto em poemas como em contos, é a arte de escolher, arranjar as palavras e soltar a alma ao mundo.
Assim, sem o mundo, sem o leitor, a palavra não se faz viva, morre na praia.
Peço, assim, a você que leia e mande comentários para o e-mail cynthia.prada@uol.com.br.
Deixe seu e-mail para trocarmos idéias.
Boa leitura!
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POETA
Da cor da mata
é o coração do poeta
que sabe
do Tudo e do Nada.
Da cor da lua
é a alma do poeta
que se entrega
ao Tudo e ao Nada.
Da cor do sol
é nossa esperança
que nutre
o Tudo e o Nada.
Da tua cor
é o retrato do espaço
que nos leva
ao Tudo e ao Nada.
O Tudo e o Nada
somos nós,
poeiras cósmicas
somente.
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FESTANÇA
Peixes dourados brilhavam
estrelas cintilavam
flores a brotar.
Um vendaval de esperança
também entrou na dança
não esperou terminar.
As cores do céu e da terra
não se fizeram convidar:
saíram do sono dolente
saltaram imediatamente
foram o "padinho" avisar.
Bateram na porta correndo...
"padinho" já tinha ido bailar.
dentro da rua
dentro da sua
a terra sorriu
a nuvem dançou
e a festa ainda não acabou.
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Um pensamento de Léon Tolstoi, aquele de "Guerra e Paz", que também escreveu "Calendário da Sabedoria", editora Ediouro:
"O mundo não é uma brincadeira, mas um lugar de provação, em ponto de parada no caminho para um mundo melhor, eterno.
Nosso objetivo é o de o fazer um lugar melhor e mais alegre de se viver para aqueles que vivem conosco e para os que vierem depois de nós."
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BOAS NOVAS:
Acabou de ganhar 1º lugar no Concurso Nacional de Contos "Cidade de Uberaba" o conto COMPASSO BINÁRIO, de minha autoria, mas inspirado principalmente na espera das mulheres pelo príncipe encantado.
Segue o conto abaixo:
"COMPASSO BINÁRIO"
Cynthia Pereira Prada
PARTE I - VIVACE
Não é uma tarde. É um tempo. Nem de chuva, nem de sol. Nem claridade nem sombra. Só um tempo de luz intensa, extrema, imensa. Luz grandiosa, grandiloqüente.
Atrás destas paredes brancas, almofadadas em um sanatório qualquer, lembranças a intrigam, a fascinam. De mãos atadas, a coceira toma conta do corpo. Tenta se morder, gritar, urrar e nada. O tempo é o senhor: afirma qualquer lembrança. Brilha luz fosforescente, incandescente... Abusa de si e se lança foguete-humano ao tempo-luz.
Quando criança, no meio da rua, era livre. Brinquedos, queimadas, castelos, faroestes, sonhos, muitos sonhos. Cada um no seu papel: rei, rainha, mucama, bandido, mocinho, prisioneiro, fugitivo, grandes heróis. Papéis preferidos, ou mesmo determinados. Por vezes, personagem tomado emprestado de quem faltara. Grandes pomares, hortas, terrenos baldios viravam amplos cenários, magníficos, grandiosos. E a peça se desenrolava. Bastava começar e o fio se estendia contínuo, uno.
Algum moleque pichara o muro: TONHO AMA MARA. E chegava Mara, furiosa, e riscava as palavras com a raiva das paixões. NÃO QUERO MEU NOME POR AÍ, dizia, gostando de ser gostada. E logo corriam pelo espaço infinito, começando outro brincar.
No meio da chuva, jogavam bola, pulavam poças, rolavam corpos. QUE SUJEIRA! ENTRA LOGO E TOMA UM BANHO QUENTE, MENINA! Depois um lanche, um lanche gostoso, quentinho, fumegante. O
dia chuvoso, brilhantemente chuvoso.
A luz, eterna luz fosforescente, demente, apaga-se agora com a entrada de enfermeiros. Na boca lhe dão sopa, ou qualquer outra coisa parecida. Os olhos foscos, vazios, inertes engolem mais um pílula, suportam mais uma picada sem dor. Sem sabor, sem sentido, por que a prendem da vida?
Mas a luz, ah! a luz volta... bendita, maldita.
Quando moleca, com o olho inchado chegou a casa. QUE FOI ISSO, MENINA? BRIGANDO DE NOVO?! De castigo, olhava, da grade da janela, a vida se tecendo na rua. Olhos da alma, bendita alma que voa e plaina e nos leva a qualquer lugar.
Certo domingo, perto do altar, escolhida entre as meninas, beijou o anel do bispo que fora visitar a paróquia. Pomposa, desenxabida, mal olhou o rosto do ilustre. Concentrou-se no anel, sim, o anel que devia beijar. Murmurou algo que lhe mandaram dizer e, após o beijo, saiu de lado sem saber aonde ir. Deu por si sentada num dos bancos da capela.
E, num desses bancos, anos depois encontrou seu primeiro amor. Esguio, esbelto, ativo e altivo como um príncipe. Falante, gozador, nervoso, a fazia derreter quando bradava à turba fiel. Príncipe cobiçado por donzelas, mas queria aquela: ela.
De novo, se encontra no escuro da cela. Tudo guarda silêncio profundo. Ela se abandona no sossego e quer se passar as mãos pela pele, se esquentar. Tudo que deseja é um gole de amor. Deseja o lânguido príncipe para lhe estender a mão com olhar terno, para se fazer quente. Sente o pulsar das veias, o coração pular, o desejo alvoroçar. Tenta se levantar, contorcer, caminhar, mas o esforço é inútil. Pedra se é.
Já de madrugada, soa alto alarme de incêndio. Correria, gritaria, bater de portas. Pegam-na pelo braço atado, carregam-na a um salão. Zonza, muito zonza, desprendem-lhe a camisa e avisam que o fogo chega: deve sair. Dela se esquecem pelo corre-corre em busca de salvação. Uma forte e quente luz ferve no ar... Labaredas ascendem e acendem o desejo de voar.
Lembra-se que, na escola, ainda menina, ouvia o toque para o recreio. Lancheiras, lanches em punho para o melhor momento da manhã. Caminhava com os amigos ao pátio. Conversas, brincadeiras, bisbilhotagens. A FREIRA NAMORA O PADRE BENTO. VIRAM ELA ENTRAR NA CASA DELE! E o sangue fervia só de pensar. ENTÃO AQUELE QUE PREGA TAMBÉM PEGA? Uns deliravam, outros descriam. É IMORAL!, dizia um. IMORAL É PENSAR QUE É VERDADE!, afirmava outra. NÃO PODE SER! Fofoca, diz-que-diz-que. A notícia corria como pólvora acesa. Olhos invadiam a casa do padre; olhos esmiuçavam o corpo da freira. Suspeita no ar. Prazer do malfeito.
A recordação se desfez ao som de sirenes dos bombeiros. Percebe-se embaixo de uma marquise na rua, encolhida, livre. Livre? Observa o corre-corre, tumulto que logo a fascina. Lembranças da juventude, luz da vida...
Retorna 20 anos atrás, quando, no imenso largo de São Francisco, em frente à Faculdade, estavam os jovens estudantes sentados, ouvindo notícias de desaparecidos políticos. A juventude participante, unida pela liberdade, marcava presença num encontro proibido pelo governo militar, o que incitava ainda mais à reunião. Empolgados, líderes acusavam o regime hipócrita e autoritário de matar opositores ideológicos. LIBERDADES DEMOCRÁTICAS! ecoava. Um misto de beleza e rebeldia, de luz nas trevas. Corria a notícia de que haveria cerco policial. Logo, tropas de choque bloqueavam os arredores da praça. A liderança, ao microfone, gritava: SENTA TODO MUNDO, SENTA! E a tropa se enfileirava, com capacetes, cacetetes, escudos, como se para combate mortal. SENTA, SENTA! corria o grito pelo povo.
Começava a marcha policial em direção aos estudantes, alvos desarmados, abaixados, rentes ao chão. Mangueiras, grossas mangueiras cuspiam forte jato de água vermelha sobre a juventude idealista, que era tomada de desespero, muito desespero. Sem parada, a tropa seguia num ritmo aterrorizante. Os jovens sentados levantaram-se rápidos e, sem saída, se espremiam, se pisoteavam para entrar pela porta central da Faculdade, único refúgio possível. Aquela luz, a luz se apagava...
Percebe-se no agora, quando é noite. Sem ninguém na rua, encontra-se ainda debaixo da marquise e se vê só e livre. Livre? Que sopro de vida resta? Sem destino sai, anda e se pega gélida.
PARTE II - ANDANTE
O frio a ofende, a fome a maltrata, a bruma a entristece. Será que ainda tem casa? Busca um canto quente para se aconchegar com as mãos, ah! as mãos, entre as pernas. Deve dormir, sonhar.
Um raio de tímido sol começa a clarear a fome, muita. Sacode-se, gozando das mãos livres. Qual animal faminto, vai à caça: busca alimento. Depara-se com lanchonete semi-aberta, na qual entra tresloucada, meio bamba. Olha a vitrine, põe a mão na roupa procurando dinheiro que desconfia não ter. Certifica-se disso, mas não consegue resistir: suplica um sanduíche. Um tanto sonado, o rapaz do balcão, para se livrar daquela presença incômoda, lhe passa metade de um misto que estava comendo. Fazendo reverências com a cabeça, ela se retira, esfuziante. Draga aquele manjar divino e se sente mais forte e feliz. O rosto de ilumina.
Nesse estado, ao longe vislumbra a silhueta do príncipe encantado, envolto na névoa da manhã. Treme de emoção sem perdê-lo de vista. Retoma fôlego e o segue. Desta vez não deseja perdê-lo. Não, desta vez não. Lembra-se do filho que quase tiveram, da casa que quase terminaram, do lar que quase construíram, dos planos que quase se realizaram. Desta vez, não. Tudo seria diferente, perfeito. Não precisaria mais ficar presa, trancafiada, dopada. Dessa vez ele a salvaria. Com essa certeza, atravessa ruas, avenidas, viadutos, atrás do príncipe.
O rapaz desconfia da perseguição e acelera o passo para se certificar da impressão. Ela faz o mesmo, acompanhando-o na rapidez. Assim, convencido, o rapaz pára e a espera passar. Porém ela estanca aonde está. Para acabar com aquilo, o moço dirige-se a ela e a interroga. Ela se joga nos braços do príncipe, balbuciando palavras de amor. Sem saber o que fazer, tomado de surpresa, sem conhecer a mulher, o rapaz se livra dela num empurrão, lançando-a ao chão, chamando-a louca.
Caída e humilhada mais uma vez, entrega-se a longo, profundo e incontrolável pranto. Lágrimas invadem rosto e alma. Tremores e soluços tomam-lhe o corpo frágil e magro. Coração transpassado, ferido de morte. Num crescente, debate-se na calçada em meio aos poucos transeuntes. Uma senhora a observa sem saber bem o que fazer; outro senhor arrisca o diagnóstico de epilepsia e pede ao dono de uma bar que chame a ambulância para resgate. Sofrimento, muto sofrimento: na vida, na rua, na calçada, no rosto mal amado, na face dos observadores. Retrato da cidade louca, insana, desgrenhada, desdenhada, abandonada à própria sorte.
PARTE III - ALLEGRO
De volta ao sanatório, agora longe das paredes brancas, almofadadas, ela rega flores inexistentes com seu regador imaginário. VIÇOSAS, MUITO VIÇOSAS, pensa alegre. CUIDADO PARA NÃO CAIR DO BALANÇO, MENINO!, grita a seu filho irreal.
Cantarola uma modinha e sorri feliz, ao lado de seu príncipe. FELIZES PARA SEMPRE!, balbucia, acariciando o ar.
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